quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Um dia o Luar.


Acordar, tomar banho, escovar os dentes, acordar as crianças, fazer café,  servir frutas  pros passarinhos, tomar café. Que saudade da torradeira, panquecas então: discos de vinil na vitrola preguiçosa tocando a voz da mãe, da vó que mora longe, o latido do cachorro… 
Levar as crianças na escola, passar pela vila, os barcos voltando, o pescado fresco, um maço de coentro. Que louca, mais um gato, só mais um. 
Sem vontade de ir à cidade, voltar, de novo a vila, os barcos ancorados, as redes estendidas, as pessoas seguintes, parar e olhar o mar… o gato brincando na areia.
Chegar em casa, abrir a porta, as mãos ocupadas, o peixe, o gato, os coentros que espantam o gato na direção do cachorro. Rabo abanando, o olhar do cachorro: “o que você fez? mais um gato?”
O peixe sobre a pia, os coentros sob o nariz, depois no copo d’água. 
Dar comida pro cachorro, pros gatos, agora são dois, apresentar a bicharada, esperar as crianças voltarem pra escolher um nome.
Música tocando, abrir as janelas, mais um café, sobrou uma panqueca, bater, teclado, som de esquecimento, teclar…  ah! claro, ler os e-mails, ler os jornais, ler as revistas, ouvir Clarisse! 
- Clarisse, o Pedro tem uma boa voz, mas aos homens não foi dado o dom de esmiuçar os pensamentos femininos, sempre os vejo dobrar pensamentos e guardá~los em gavetas. Prefiro ler, mas esse eu já li.
Teclar, um minuto, mais minutos, pedir orçamento, receber orçamento, concordar com o preço? Eu cobraria mais, pra que discutir?
Atender o telefone, ter que sair. Voltar.
Teclar, olhar pela janela, não vai chover, molhar a horta, molhar o jardim. Mudas de chicória, bulbos… Plantei a chicória, esqueci dos bulbos. Os vizinhos, Sebastião, nhá Cenira, a conversa, o sol bendito, a descoberta: a onze horas resistiu ao inverno, e cresce embaixo da árvore da felicidade. A felicidade não cai como chuva sobre nossas cabeças? Não, essa não, cresce da terra e faz sombra no caminho.
Olhar o céu, depois da conversa, o pensamento aparado por outra vizinha com salsão na mão. O que aconteceu? Ela sempre traz almeirão. 
O vento também saiu pra passear, tive que entrar. Teclar, esperar… Noticias, certificados, a carta.
Que carta linda gravura linda, ganhei o dia!
Almoço, crianças chegando, almoçar… 
 O gato
 -  mais um gato?
-  eu adorei! 
-  eu não! 
-  como ele vai chamar?
-  Deixa eu contar uma história: Era ainda bem cedinho, ele tava na rua e um resto de lua no céu, Olhei pra ele, olhei pro céu, pensei em chamá~lo de luar, porque céu é um nome pequeno, mas grande demais”
- Mas Luar não é nome de menina? 
- E daí? a lua é um satélite! 
- Não entendi?!?! nem precisa, sempre que misturam homem e mulher não dá pra entender nada mesmo!
 – Então, está decidido: O nome dele é Luar!!!
 Vontade de sobremesa, estender a mão, falar, falar, falar, não estou vendendo o carro, mas todo mundo quer comprar.  Prima? que prima? Não tenho primas!
 - Todo mundo tem prima.
- Eu não filho
- E agora mãe? Eu também não!
 Ver quem é. não sei quem é.
 - Não se lembra de mim?
- Não
Conversa vai, conversa vem, nem tudo se entende e nem todo mundo se conhece bem.
 Ele vai andar de bicicleta, ela brinca de boneca. Ela exercita o balé, ele antes da cabeça dela tinha a bola no pé.
 - Mãe, eu trouxe goiaba
- Mãe, o que eu faço agora?
- Mãe, minha amiga foi embora
- Mãe, fome de novo, o café? não é hora?
- Mãe, ainda tem queijo?
- Mãe, sabe o que aconteceu na escola?
 - Nunca vi dois gatos se darem bem, com cachorro então… 

Mesas e janelas, combinação perfeita, enquanto comemos olhamos através delas.  
 O trabalho, paciência, eles e a algazarra, uma árvore, um livro, passos até a torre. 
Voltando, o frio, o suspiro, galhos secos, hibiscos para o chá. 
Agora é fácil, tudo acalmou…

- Mãe, o caderno acabou.
Saímos, cadernos, lápis, tinta, pincéis, tecidos, crepom, cartões, pulseira, um filme.
Metade do caminho, a casa do pai, a casa da mãe, tudo tão diferente e no mesmo lugar.
Voltar, os olhos, a atenção, o que eles falam.
A ideia, eles e ela. Teclar. Eles e ela, a ideia aqui, eles aqui, um minuto, mais minutos, indo e vindo.
A noite chegou, pescado assado, vovô, vovó
 - Ihh, a vovó odeia gatos.
- O vovô adora!

Risos, coentros, galhos antes secos, agora coloridos, num vaso de cristal

- Eu arrumei a mesa vó!!!
 O olhar do vô, o olhar da vó: mais um jeito de olhar. A ideia persiste, está entre nós. fim do jantar.

- Boa noite mãe
 O banho, o tempo, o crescimento, o secreto…

- Já tomamos banho mãe, enquanto você preparava o jantar.
 Beijos assim, beijos também, beijos além…

Fugindo do dia, querendo dormir. Logo amanhecer!
- Boa noite pequeno, boa noite pequena, imenso é o amanhã... dormir e acordar... Luar!
(k)

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